segunda-feira, 1 de abril de 2013


BATISMO COM FOGO?!

1. INTRODUÇÃO

Vamos iniciar nosso estudo, analisando o famoso (e controvertido) texto de Mateus onde encontramos João, o Batista, declarando algo que ainda em nossos dias ressoa pelos ares e ecoam nos corações:

Yo, a la verdad, os bautizo en agua para arrepentimiento;
pero el que viene después de mí, cuyo calzado no soy digno de llevar, 
es más poderoso que yo.
El os bautizará en el Espíritu Santo y fuego.
(Mateus 3:11, na Versão Reina-Valera)

"Eu vos batizo com água, para arrependimento;
mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu,
cujas sandálias não sou digno de levar.
Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo."
(Mateus 3:11, na ARA)

"E eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento;
mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu;
não sou digno de levar as suas sandálias;
ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo."
(Mateus 3:11, na ARC)


2.    CONSIDERAÇÕES INICIAIS

        No texto de Mateus 3:11, que ora pretendemos analisar, existem verdades subjacentes que jamais deveríamos olvidar.
        Por este motivo, no presente trabalho pretendemos investigar o texto em questão, com o propósito de entendermos melhor e corretamente o seu sentido.
        Observemos, inicialmente, que a declaração de João, o Batista, está diretamente envolvida com o verbo grego baptizo. Este verbo aparece 76 vezes nas páginas no NT. Seus significados básicos são: "imergir repetidamente"; "imergir, para submergir (de recipientes afundados)"; "limpar imergindo ou submergindo"; "lavar, para tornar limpo com água", entre outros.
        No grego clássico, o exemplo mais claro que demonstra o significado de baptizo é um texto do poeta e médico grego Nicander que viveu em aproximadamente 200 a.C. Trata-se de uma receita para se fazer pepinos em conserva. Nicander ensina que para fazer um pepino em conserva, deveria o legume ser imerso (baptos) em água fervente e em seguida mergulhado (baptizo) na solução de vinagre. Ambos os verbos (baptos e baptizo) nos interessam. Mas, observemos que enquanto o primeiro oferece-nos a idéia de um ato temporário, o segundo produz uma mudança permanente. Ou seja, a diferença básica entre eles é a que diz respeito à intensidade.
Quando usado no NT, a palavra baptizo recorre com muito mais  
freqüência à nossa união e identificação com Cristo (e.g. Mc 16:16). Ou seja, segundo Cristo, o mero consentimento intelectual não é suficiente para a salvação.  É necessário que haja uma união com Ele, uma real mudança, como o legume para o pepino em conserva!


3. BATISMO COM FOGO?

Ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo.
O que, realmente, significa esta assertiva?
Com toda certeza, ao longo da história da Igreja, esta frase tem sido alvo de acirrados debates.
Para alguns, João estava se referindo aos terríveis julgamentos que deveriam ser infringidos por Jesus à nação judaica, quando Ele os deveria reprovar pelo pecado de O terem rejeitado. Os que assim argumentam, o fazem baseados em dois textos do AT: "E sairão e verão os corpos mortos dos homens que prevaricaram contra mim; porque o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se apagará; e serão um horror para toda a carne" (Is 66:24, na ARA) e Ml 3:2,3, na mesma versão: "Mas quem suportará o dia da sua vinda? E quem subsistirá, quando ele aparecer? Porque ele será como o fogo do ourives e como o sabão dos lavandeiros. Assentar-se-á como derretedor e purificador de prata; purificará os filhos de Levi e os refinará como ouro e como prata; eles trarão ao Senhor justas ofertas".
No entanto, a interpretação mais plausível para a declaração ora analisada, sem dúvida alguma, é aquela que estabelece o relacionamento entre o que João declara aqui e o cumprimento desta declaração no Pentecostes. No texto inspirado, encontramos a declaração: "Cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar; e, de repente, veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa em que estavam assentados. E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. E todos foram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem". (At 2:1-4, na ARC).
É importante salientarmos, que das 421 ocorrências de “fogo” (versão ARC) nas páginas das Escrituras Sagradas, a maioria delas vincula o fogo como sinal visível da presença e do poder de Deus, embora, de fato, segundo a linguagem bíblica, o fogo também esteja associado á purificação (e.g. Mc 9:49).
No entanto, nas páginas do NT, o Espírito Santo está intimamente associado à idéia de fogo, como fica claramente demonstrado no texto de Atos 2, onde Lucas narra o episódio do Pentecostes.
Assim, podemos concluir que João, o Batista, ao referir-se ao batismo “com fogo”, sem dúvida alguma estava se referindo, inspirado pelo mesmo Espírito, àquela experiência poderosa, tremenda, transformadora, impulsionadora que ocorre na vida daquele que permite que o Espírito Santo o encha sem medida (cf. Jo 3:34). Existe aqui uma clara distinção entre ser batizado com o “Espírito Santo” e ser batizado também “com fogo”. Prova indubitável desta verdade, é que no texto grego de Mt 3:11 aparece a conjunção grega kai, que não significa apenas “e", mas que pode significar "também", "até mesmo", entre outros.  Portanto, este “batismo" pode ser definido como uma imersão profunda e tremenda na imensurável graça de Deus e no poder de Seu Espírito, que nos capacita a viver acima do trivial, que nos outorga poder extraordinário para testemunhar (cf. a expressão grega parresia, "coragem", "confiança", "ousadia"). É, por assim dizer, a concretização do vaticínio profético de Ezequiel:

"Depois disso, me fez voltar à entrada da casa,
e eis que saíam umas águas de debaixo do umbral da casa,
 para o oriente; porque a face da casa olhava para o oriente,
e as águas vinham de baixo, desde a banda direita da casa,
da banda do sul do altar. E ele me tirou pelo caminho da porta
do norte e me fez dar uma volta pelo caminho de fora, até a porta exterior, pelo caminho que olha para o oriente;
e eis que corriam umas águas desde a banda direita.
Saiu aquele homem para o oriente, tendo na mão um cordel de medir; e mediu mil côvados e me fez passar pelas águas,
águas que me davam pelos tornozelos.
E mediu mais mil e me fez passar pelas águas,
águas que me davam pelos joelhos;
e mediu mais mil e me fez passar pelas águas,
águas que me davam pelos lombos.
E mediu mais mil e era um ribeiro, que eu não podia atravessar, porque as águas eram profundas,
águas que se deviam passar a nado..." (Ez 47:1-5).
        
         Ao lermos o texto de At 2, podemos perceber, claramente, que na vida dos que estavam reunidos no cenáculo esta promessa cumpriu-se de forma maravilhosa: foram mergulhados no poder do Espírito de forma tão intensa que a reação de alguns dos que acorreram ao lugar em que estavam, foi a de concluírem imediatamente tratar-se de embriaguez, haja vista a "inundação" que invadira aqueles tímidos crentes agora revestidos de poder (cf. At 2:12-15)!
Resta-nos, finalmente, a recomendação de Paulo aos crentes de Éfeso:  "E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito". (Ef 5:18).

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