BATISMO
COM FOGO?!
1.
INTRODUÇÃO
Vamos iniciar nosso estudo, analisando o
famoso (e controvertido) texto de Mateus onde encontramos João, o Batista, declarando algo que ainda em nossos dias
ressoa pelos ares e ecoam nos corações:
Yo, a la verdad, os bautizo en
agua para arrepentimiento;
pero el que viene después de mí,
cuyo calzado no soy digno de llevar,
es más poderoso que yo.
El os bautizará en el Espíritu
Santo y fuego.
(Mateus
3:11, na Versão Reina-Valera)
"Eu
vos batizo com água, para arrependimento;
mas
aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu,
cujas
sandálias não sou digno de levar.
Ele
vos batizará com o Espírito Santo e com fogo."
(Mateus
3:11, na ARA)
"E
eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento;
mas
aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu;
não
sou digno de levar as suas sandálias;
ele
vos batizará com o Espírito Santo e com fogo."
(Mateus
3:11, na ARC)
2. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
No
texto de Mateus 3:11, que ora pretendemos analisar, existem verdades
subjacentes que jamais deveríamos olvidar.
Por
este motivo, no presente trabalho pretendemos investigar o texto em questão,
com o propósito de entendermos melhor e corretamente o seu sentido.
Observemos,
inicialmente, que a declaração de João, o Batista, está diretamente envolvida
com o verbo grego baptizo. Este verbo aparece 76
vezes nas páginas no NT. Seus significados básicos são: "imergir
repetidamente"; "imergir, para submergir (de recipientes
afundados)"; "limpar imergindo ou submergindo"; "lavar,
para tornar limpo com água", entre outros.
No
grego clássico, o exemplo mais claro que demonstra o significado de baptizo
é um texto do poeta e médico grego Nicander que viveu em aproximadamente 200 a .C. Trata-se de uma
receita para se fazer pepinos em conserva. Nicander ensina que para fazer um
pepino em conserva, deveria o legume ser imerso (baptos) em
água fervente e em seguida mergulhado (baptizo) na solução
de vinagre. Ambos os verbos (baptos e baptizo) nos interessam.
Mas, observemos que enquanto o primeiro oferece-nos a idéia de um ato temporário,
o segundo produz uma mudança permanente. Ou seja, a diferença básica
entre eles é a que diz respeito à intensidade.
Quando usado no
NT, a palavra baptizo recorre com muito mais
freqüência à nossa união e identificação com
Cristo (e.g. Mc 16:16). Ou seja, segundo Cristo, o mero consentimento
intelectual não é suficiente para a salvação.
É necessário que haja uma união com Ele, uma real mudança, como o legume
para o pepino em conserva!
3. BATISMO COM FOGO?
Ele vos batizará com o Espírito Santo, e com
fogo.
O que, realmente, significa esta
assertiva?
Com toda certeza, ao longo da história da
Igreja, esta frase tem sido alvo de acirrados debates.
Para alguns, João estava se referindo aos
terríveis julgamentos que deveriam ser infringidos por Jesus à nação judaica,
quando Ele os deveria reprovar pelo pecado de O terem rejeitado. Os que assim
argumentam, o fazem baseados em dois textos do AT: "E sairão e verão os corpos mortos dos homens que
prevaricaram contra mim; porque o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se
apagará; e serão um horror para toda a carne" (Is 66:24, na ARA) e Ml 3:2,3, na mesma versão: "Mas quem suportará o dia da sua vinda? E quem subsistirá,
quando ele aparecer? Porque ele será como o fogo do ourives e como o sabão dos
lavandeiros. Assentar-se-á como derretedor e purificador de prata; purificará
os filhos de Levi e os refinará como ouro e como prata; eles trarão ao Senhor
justas ofertas".
No entanto, a interpretação mais
plausível para a declaração ora analisada, sem dúvida alguma, é aquela que
estabelece o relacionamento entre o que João declara aqui e o cumprimento desta
declaração no Pentecostes. No texto inspirado, encontramos a declaração: "Cumprindo-se
o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar; e, de repente,
veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso, e encheu toda a casa
em que estavam assentados. E foram vistas por eles línguas repartidas, como
que de fogo, as quais pousaram sobre cada um deles. E todos foram cheios do
Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito
Santo lhes concedia que falassem". (At 2:1-4, na ARC).
É importante salientarmos, que das 421
ocorrências de “fogo” (versão ARC) nas páginas das Escrituras Sagradas, a
maioria delas vincula o fogo como sinal visível da presença e do poder de Deus,
embora, de fato, segundo a linguagem bíblica, o fogo também esteja associado á
purificação (e.g. Mc 9:49).
No entanto, nas páginas do NT, o Espírito
Santo está intimamente associado à idéia de fogo, como fica claramente
demonstrado no texto de Atos 2, onde Lucas narra o episódio do Pentecostes.
Assim, podemos concluir que João, o
Batista, ao referir-se ao batismo “com fogo”, sem dúvida alguma estava se
referindo, inspirado pelo mesmo Espírito, àquela experiência poderosa,
tremenda, transformadora, impulsionadora que ocorre na vida daquele que permite
que o Espírito Santo o encha sem medida (cf. Jo 3:34). Existe aqui uma clara
distinção entre ser batizado com o “Espírito Santo” e ser batizado
também “com fogo”. Prova indubitável desta verdade, é que no texto grego de
Mt 3:11 aparece a conjunção grega kai, que não significa apenas
“e", mas que pode significar "também",
"até mesmo", entre outros.
Portanto, este “batismo" pode ser definido como uma imersão
profunda e tremenda na imensurável graça de Deus e no poder de Seu
Espírito, que nos capacita a viver acima do trivial, que nos outorga poder
extraordinário para testemunhar (cf. a expressão grega parresia, "coragem", "confiança", "ousadia"). É, por assim
dizer, a concretização do vaticínio profético de Ezequiel:
"Depois
disso, me fez voltar à entrada da casa,
e
eis que saíam umas águas de debaixo do umbral da casa,
para o oriente; porque a face da casa olhava
para o oriente,
e
as águas vinham de baixo, desde a banda direita da casa,
da
banda do sul do altar. E ele me tirou pelo caminho da porta
do
norte e me fez dar uma volta pelo caminho de fora, até a porta exterior, pelo
caminho que olha para o oriente;
e
eis que corriam umas águas desde a banda direita.
Saiu
aquele homem para o oriente, tendo na mão um cordel de medir; e mediu mil
côvados e me fez passar pelas águas,
águas
que me davam pelos tornozelos.
E
mediu mais mil e me fez passar pelas águas,
águas
que me davam pelos joelhos;
e
mediu mais mil e me fez passar pelas águas,
águas
que me davam pelos lombos.
E mediu mais mil e era um ribeiro, que eu
não podia atravessar, porque as águas eram profundas,
águas que se deviam passar a
nado..." (Ez 47:1-5).
Ao
lermos o texto de At 2, podemos perceber, claramente, que na vida dos que
estavam reunidos no cenáculo esta promessa cumpriu-se de forma maravilhosa: foram
mergulhados no poder do Espírito de forma tão intensa que a reação de
alguns dos que acorreram ao lugar em que estavam, foi a de concluírem
imediatamente tratar-se de embriaguez, haja vista a "inundação" que
invadira aqueles tímidos crentes agora revestidos de poder (cf. At 2:12-15)!
Resta-nos, finalmente, a recomendação de
Paulo aos crentes de Éfeso: "E não vos embriagueis com
vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito". (Ef 5:18).
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