quarta-feira, 11 de julho de 2012

PHILÉO OU AGAPÁO?
UMA ANÁLISE DE JO 21:15-17

INTRODUÇÃO
O diálogo de Jesus com Pedro descrito no vigésimo primeiro capítulo de João tem sido alvo de dúvidas e questionamentos, principalmente no que tange à utilização ou não de termos originais distintos para diferenciar o amor, a que Jesus Se referiu ao questionar Pedro. Para melhor aproveitamento deste nosso estudo, vamos analisar o texto em duas versões, a ACF, de 1753 e a KJV, de 1611.

Jo 21:15-17, na ACF (com grifos nossos): 15 E, depois de terem jantado, disse Jesus a Simão Pedro: Simão, filho de Jonas, amas-me mais do que estes? E ele respondeu: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe: Apascenta os meus cordeiros. 16 Tornou a dizer-lhe segunda vez: Simão, filho de Jonas, amas-me? Disse-lhe: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe: Apascenta as minhas ovelhas. 17 Disse-lhe terceira vez: Simão, filho de Jonas, amas-me? Simão entristeceu-se por lhe ter dito terceira vez: Amas-me? E disse-lhe: Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo. Jesus disse-lhe: Apascenta as minhas ovelhas.


Jo 21:15-17, na KJV (grifos nossos): 15 So when they had dined, Jesus saith to Simon Peter, Simon, son of Jonas, lovest thou me more than these? He saith unto him, Yea, Lord; thou knowest that I love thee. He saith unto him, Feed my lambs. 16 He saith to him again the second time, Simon, son of Jonas, lovest thou me? He saith unto him, Yea, Lord; thou knowest that I love thee. He saith unto him, Feed my sheep. 17 He saith unto him the third time, Simon, son of Jonas, lovest thou me? Peter was grieved because he said unto him the third time, Lovest thou me? And he said unto him, Lord, thou knowest all things; thou knowest that I love thee. Jesus saith unto him, Feed my sheep.


PRELIMINARES
Como podemos observar, tanto a versão de João Ferreira de Almeida como a King James Version não fizeram qualquer distinção entre os verbos gregos. No entanto, ao analisarmos os mesmos no original grego do NT, observamos que nas duas primeiras vezes que Jesus pergunta a Pedro: “Amas-me?”, o grego traz agapas me, enquanto que as respostas de Pedro, desde a primeira pergunta, foram philo se. No entanto, quando Jesus pergunta pela terceira vez, “Amas-me?”, encontramos no original grego a ocorrência de philei me, ao que Pedro responde philo se. Desta forma, muita conjectura tem surgido em torno desta situação, gerando inúmeras controvérsias, principalmente pelo fato de que, se por um lado agapas, do verbo agapáo, tenha a conotação de “amor profundo”, “amar ternamente”; phileis, do verbo philéo tem o sentido de “ter simpatia”, “gostar”. No entanto, munindo-nos de uma boa concordância de grego, poderemos observar que os verbos philéo e agapáo são usados como sinônimos nas páginas do Novo Testamento grego. Portanto, a questão se há alguma diferença entre agapáo e philéo no Novo Testamento poderá ser resolvida analisando-se, por exemplo, o Quarto Evangelho, pois para João, parece que não havia qualquer diferença entre estes verbos. Basta notar que agapáo ocorre 37 vezes em João: “Deus amou o mundo de tal maneira” (Jo 3:16); “Jesus amava Marta, a irmã dela e Lázaro” (Jo 11:5); “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros. Como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros” (Jo 13:34). Nota-se, pois, que o uso de agapáo reflete o amor de Deus pelo mundo, o amor de Jesus por Lázaro e suas irmãs, o amor de Jesus pelos discípulos e o amor que devemos ter uns para com os outros. Entretanto, de igual modo philéo é usado por João: “O Pai ama o Filho” (Jo 5:20); “Senhor, aquele a quem amas está doente” (Jo 11:3); “pois o próprio Pai vos ama porque Me amastes” (Jo 16:27); “outro discípulo, que Jesus amava” (Jo 20:2). Além disto, no restante do Novo Testamento agapáo é normalmente traduzido como "amar". Philéo algumas vezes é traduzido como "gostar" (de fazer algo) – cf. Mt 6:5; 23:6; Lc 20:46. O uso esquecido de philéo é aquele visto em Mt 26:48, Mc 14:44 e Lc 22:47. Nesses textos philéo significa "beijar". As três ocorrências se referem ao beijo de Judas em Cristo. No mais, não há nenhum demérito em philéo, referindo-se sempre, à semelhança de agapáo, ao amor genuíno: “Se alguém não ama o Senhor, seja anátema!” (1Co 16:22); “Eu repreendo e castigo a todos quantos amo...” (Ap 3:19).


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Assim sendo, parece-nos melhor considerar os dois verbos como sinônimos quando se referem ao amor. Verdade é que philéo admite a possibilidade de ser traduzido como "gostar", mas nesse caso geralmente está acompanhado do infinitivo. A diferença estaria apenas no sentido de "beijar" que philéo também expressa.

Finalmente, creio ser de bom alvitre que recordemos que Jesus e Pedro não conversavam, originalmente em grego, mas em aramaico, onde a distinção entre os dois termos, simplesmente inexiste!

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